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Archive for 3 de novembro de 2009

Letrinhas

Suellen de Oliveira Amorim

O Fórum das Letrinhas 2009 traz uma programação diferenciada: é a primeira edição que leva aos educadores eventos especialmente planejados para atender a esse público diferenciado. Na manhã de sábado, dia 31, aconteceu o colóquio “Olhares Sensíveis”, direcionado aos educadores das escolas públicas e privadas de Ouro Preto e Mariana. Compuseram a mesa, coordenada por Adriana Gomes Venâncio, o presidente da Câmara Mineira do Livro, Alencar Mayrink, as educadoras Andréia Rocha Chagas e Elizete Lisboa, a jornalista Marta Maia e o representante da Apae de Ouro Preto Júlio César Francisco. O evento foi todo traduzido pela linguagem de Libras.

Elizete Lisboa, autora de livros em duas linguagens: braile e português convencional, abriu a palestra contando um pouco da experiência pessoal desde a infância. Ela conta que, apesar dos regressos que o Brasil vem sofrendo em outras áreas, a qualidade de vida dos deficientes brasileiros melhorou, pois atualmente já existe a consciência da inclusão social. Elizete contou que, como era uma criança deficiente visual, ela já chegar a ser “devolvida” à família pela escola onde estudava. A educadora enfatizou a importância do aprendizado do braile para a criança cega, já que na infância a necessidade de leitura é maior do que nas outras fases da vida. Finalizou as colocações com uma dinâmica muito interessante de ensino do braile: mostrou, através de música, que qualquer pessoa pode dominar a linguagem, basta dominar a técnica que consiste em trocar apenas seis pontos de lugar para formar letras, números e símbolos.

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Questionada sobre o custo da inserção do braile em edições de livros, para que tenham duas linguagens, a educadora revelou que o custo final da obra sofre apenas um acréscimo de até R$4, valor perfeitamente aceitável pelo mercado consumidor. Ela ainda informou que a Fundação Dorena disponibiliza mapas em bralie para os alunos. Na cidade de Ouro Preto o Instituto Candonguêro oferece o ensino do braile. Já em Belo Horizonte é possível aprender na Biblioteca Pública Luiz de Bessa, nas Edições Paulinas e no Instituto São Rafael.

O Colóquio seguiu com a apresentação da professora de língua brasileira de sinais Andréia Rocha Chagas. Ela lamenta que algumas instituições públicas se preocupem em oferecer o curso de Libras para os funcionários apenas para cumprir a legislação em vigor, que exige que todas as instituições que lidam com público tenham profissionais capacitados para o atendimento de deficientes auditivos. Ela enfatiza que a Libras necessita de expressão e dedicação, e não deve ser encarada com automatismo. As próprias famílias de deficientes auditivos, por vezes, não se interessam na comunicação com o surdo, e ele acaba sendo marginalizado dentro de sua casa, ou até mesmo tratado como deficiente mental. Andréia concluiu com uma apresentação que alerta para a importância de não dirigir ao deficiente um olhar diferente, que o faça sentir-se inferiorizado.

Em seguida a professora do curso de jornalismo da Ufop, Marta Maia, introduziu sua discussão alertando para o risco da exposição excessiva da criança às mídias, como a televisão. Ela citou o projeto “Leitura crítica da mídia”, coordenado por ela e direcionado para a Escola Benjamin Guimarães, localizada em Passagem de Mariana, que busca despertar para o olhar seletivo que se deve ser lançado sobre os meios de comunicação. Deve-se levar em consideração o processo de produção da notícia como um todo: desde quem decide o que é noticia, até as parcialidades que tal processo implica, como a censura que ainda vigora sobre essa produção. A professora convoca a acompanhar o processo de produção jornalístico e cultural, para que se visualize que o jornalismo pode não ser o espelho da realidade, como procura aparentar. Marta lamenta que o método de ensino no Brasil ainda seja muito “conteudista”, e priorize o acúmulo de informação em detrimento da experiência pessoal. Também no jornalismo isso se reflete, pois se criou o hábito de desprezar a fonte informal, a conversa casual.

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A educadora alerta para a necessidade da percepção do outro. Essa percepção deve começar já no ambiente universitário, no ensino que possibilite ao jovem encarar o diferente e o deficiente como uma minoria na comunidade, mas não como um gueto social. A própria universidade precisa se preparar para receber o aluno com necessidades especiais; pois facilitando o convívio, o preconceito pode diminuir gradativamente. Marta concluiu enfatizando que é preciso valorizar o jornalismo de qualidade e exibiu uma reportagem do Fantástico, 2008, que mostrava o desafio de um pai que virou triatleta para levar o filho deficiente a competições esportivas. O filho, Rick, só dominava o movimento da cabeça, mas com o auxílio do pai, Dick, ele podia sentir, em suas próprias palavras, a deficiência desaparecer.

O Colóquio seguiu durante toda à tarde com a presença do jornalista e escritor Márcio Vassalo que ainda autografou seus livros ao final do evento.

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Gracy Laport e Marcela Servano

Na Igreja São Francisco, na cidade de Ouro Preto, nenhum objeto está disposto ao acaso. Tudo gira em torno de uma temática, o arrependimento. Há lá uma narrativa em forma de linguagem. Esta percepção foi apresentada por Flávio Carneiro, ao abrir a mesa A Literatura em outras Linguagens, em que estiveram presentes Adriana Lunardi, escritora;  Jorge Díaz,  espanhol que sonha ser considerado um honorável cidadão carioca e trabalha como roteirista e escritor; e Max Mallman, também roteirista e escritor.

Todos os autores caminham pelo romance, “uma forma literária propensa ao hibridismo”, segundo Flávio Carneiro e que possui a vantagem de, como gênero, tudo lhe caber, como também pensa Adriana Lunardi. Em meio ao caleidoscópio de perspectivas aplicadas a diversas narrativas, pergunta-se se toda narrativa é literária.

Mallman declara que “a chave para o roteiro é a literatura, tudo são contar histórias”, quando se refere a essa forma narrativa que, segundo Díaz, nunca deve ser tida como concluída, precisando haver sempre um espaço para melhorá-la. No roteiro, as impressões literárias estão sempre cercadas pelo diretor, pelos atores e pela verba disponível para sua execução. No romance, que desde o século XIX ocupa lugar ilustre na literatura e que soube renovar-se para seu público, há intensa liberdade criativa, uma liberdade que “dá vertigem”, confessa Jorge Díaz. Carneiro expõe a contradição de que há certa imposição, principalmente do mercado editorial, de que os autores sempre falem sobre os mesmos assuntos.

Sobre a polêmica que gira em torno da caracterização de uma boa ou má literatura, foi levantada a importância da literatura popular para o amadurecimento de leitores. A análise da narrativa televisiva pôs em questão a validade da tradução literária nas telas e a posição da tevê como agregadora ou como dispersora de leitores. Sobre isso, Lunardi afirma que as pessoas têm necessidade de ficção, não importa em qual meio; e que essa questão é um enigma muito maior do que uma mera constatação estatística, referindo-se à audiência e à venda de livros. A liquidez do romance permite que linguagens de outras áreas, como a botânica e as artes plásticas apropriadas por Lunardi, adquiram a conotação literária.

A televisão, ainda que não mostre como exemplo cidadãos leitores, os atrai quando apresenta releituras de obras como “O primo Basílio”, de Eça de Queirós e “Gabriela”, de Jorge Amado. A acusação de que o Brasil é um país carente de leitores devido à importância dada pelos brasileiros para a televisão mostra-se falha quando se constata que nunca se leu tanto e de maneira tão democrática, em que novos suportes dão mais acesso à informação. Segundo Mallman, o romance pode canibalizar outros meios, e esta é uma relação recíproca.

Díaz afirma que  as pessoas atribuem a promoção da educação e do hábito de leitura  à tevê,uma função que, segundo ele, cabe à família e à escola. Lunardi afirma que é responsabilidade do governo proporcionar acesso à leitura e se contradiz ao dizer posteriormente que “preservar a leitura cabe a quem lê e não ao Lula”. Como escritora que possui a liberdade de escrever o que gosta e de não se ater à audiência diz: “desacredito na superstição numérica; estamos falando de literatura ou de estruturas sociais?”.

A literatura, não importa em que linguagem seja apresentada, possui o poder orgânico de formação cidadã. Sua tradução em outros meios e o barateamento de livros são ações que democratizam o acesso à leitura.

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Lucas Santos Lima e Diego Rodrigues da Silva Sousa

No domingo, as mesas começam com a falta de um grande nome na grade do evento, Fernando Moraes de última hora cancela sua presença devido a uma audiência em Miami. A mesa passa a contar então com a presença de Paulo César de Araujo, historiador formado pela Universidade Federal Fluminense e jornalista. Entre seus livros publicados está a biografia não autorizada de Roberto Carlos: “Roberto Carlos em detalhes”, que foi perseguida pelo cantor, e “Eu não sou cachorro, não” livro relevante sobre a MPB por mostrar que cantores bregas também sofreram censura na época da ditadura.

O outro debatedor, Guilherme Fiúza, é um jornalista que escreveu a biografia de João Estrella  na qual foi baseada a produção cinematográfica homônima: “Meu nome não é Johnny”, publicou ainda “3.000 dias no bunker” e “Amazônia, 20º andar”.

A mesa, que foi mediada por Ana Paola Amorim, apresentou como tema “Biografia revelação: o biógrafo em saia justa”.

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A conversa começa com o questionamento de Ana Paola sobre as saias justas passadas pelos autores durante o trabalho com seus biografados que, diferente de outros autores convidados do evento, são em suma biografias de pessoas vivas.

Fiuza comenta sobre a dificuldade de trabalhar com alguém que teve ligações com o tráfico de drogas e o receio de uma recaída por parte deste, mas ao mesmo tempo relata também a facilidade que teve ao convencer João Estrella a ser biografado e em resposta a uma pergunta da platéia comenta sobre a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista.

Enquanto  que Paulo César comenta sobre o processo de Roberto Carlos contra seu livro e o ressentimento que guardou da situação, também comenta sobre a forma que o cantor escrevia suas letras e da lei que favorece a publicação de informações privadas de pessoas públicas.

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Neste domingo (1º), as discussões do Fórum das Letras 2009  começaram com a mesa “Novas mídias: a revolução das redes sociais”, apresentada por João Alegria e Joana Meniconi com mediação de Beth Ritto, no Teatro Casa da Ópera.

Ana Cláudia Sampaio e Jorge Lélis

O tema chamou a atenção dos que compareceram à Casa da Ópera nesta manhã de domingo, todos interessados em saber como está se dando a revolução nas relações interpessoais e na produção e veiculação de conteúdo no mundo moderno através de redes como o Orkut, Facebook, Twitter, dentre outras. Para esboçar esse cenário, os convidados debateram o tema e responderam perguntas da platéia.

O autor, roteirista e diretor, João Alegria, que atualmente trabalha na Fundação Roberto Marinho, no Canal Futura, onde ocupa o cargo de gerente de programação, defendeu que as redes sociais reais são um espaço muito mais amplo que as redes eletrônicas conseguem abranger. Para ele, as comunidades de mediação eletrônica são apenas uma pequena parte de tudo que acontece de inter-relações, sendo a mediação fator fundamental para as redes sociais. Contextualiza falando de como as mediações tem-se transformado na história da humanidade, e de como funcionam nos dias de hoje, alertando para o perigo de que o virtual pode ser bem real. “O twitter é interessante à medida que possui uma série de regras próprias impostas aos ‘twitteiros’, que, quando fogem a elas, enfrentam problemas bem reais. O que se diz no Twitter, e a forma como que se diz deve ser analisada de maneira criteriosa para evitar certos constrangimentos.”

A videoartista Joana Meniconi, bacharel em comunicação e mestre em comunicação e sociabilidade, ambos pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, falou sobre as redes sociais virtuais e ressaltou a importância das mesmas para a sociedade moderna como meio de interferência real e direta na vida das pessoas. Para ela, o impacto das mídias nas redes sociais apresenta-se de forma mais evidente atualmente devido à facilidade de acesso aos meios de comunicação.

Outro ponto discutido foi a separação espacial que os meios de comunicação provocam na relação face a face. Joana Meniconi explicou que a distância entre quem escreve e quem lê, só existe no mundo real, e essa distância não permite a percepção do interlocutor, principalmente porque não se sabe mais a quem se fala. “A internet lhe oferece uma rede gigante de possibilidades. Cada pessoa pode demarcar seu próprio espaço, não é preciso mais ser uma pessoa ilustre para possuir um tipo de autobiografia nestas novas redes sociais, tais como Orkut, Twitter, Facebook”, disse Joana.

A mesa não se resumiu apenas aos novos softwares que proporcionam a criação de redes sociais, falou-se também das tecnologias palpáveis, como o aparelho celular, que aumentam o acesso imediato a outras pessoas, proporcionando comunicação sem que dois indivíduos precisem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. A mediadora do debate, Beth Ritto, jornalista e roteirista, defendeu o uso do aparelho, chegando a dizer que não poderia viver sem ele. João Alegria acrescentou um dado que justifica a postura de Ritto. Para ele “o celular é a grande ferramenta e solução comunicacional da atualidade.” Exemplificou citando os milhares de empregos que, segundo ele, foram gerados graças ao telefone móvel pré-pago. “Isso fica claro nas favelas”, disse ele, “as favelas tem becos e não ruas, becos não tem nomes, não há como mandar cartas, não existe telefonia fixa. O celular pré-pago pôs esses moradores no mercado de trabalho, há um modo de encontrá-los. Nos currículos dessas pessoas, não figura endereço certo, apenas o número para contato”.

“Cada vez mais pessoas têm a possibilidade de divulgar o que produzem.” A frase de Alegria elucida o que essas redes sociais têm de melhor. É fato que, hoje, qualquer pessoa com um computador com acesso a internet pode ser uma produtora de conteúdo, e isso vai além. Segundo Alegria, alguns usuários promovem “apropriações” de antigas narrativas, que já foram disseminadas e geram novas a partir de leituras e contextos diferentes dos originais. Ao contrário do que se pensa, estas redes sociais promovem uma busca muito grande pelo conhecimento. ”Nunca antes se escreveu, leu e produziu tantas narrativas”, comenta.

Os participantes da mesa fizeram ainda considerações sobre o que esperam no futuro para essas tecnologias. Foi consenso na mesa que a internet se especializará cada vez mais como “repositório de tudo que se precisa”. Produtos, informações e acesso rápido a outros indivíduos.

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